Imaginou o momento uma centena de vezes. Cores, sons,
cheiros, palavras ditas. Imaginava e sentia-se plena. Mas não, em nenhuma única
vez imaginada ficou paralisada, com o corpo tremulo e essa bola sufocante
travando a garganta. Ficou quietinha, tentando desaparecer na cadeira, falando
baixinho para não ser ouvida, olhando na direção contrária para garantir que
caso ele a visse pensasse que ela não o viu e ficasse tudo por isso mesmo.
Apressou a família para que a refeição terminasse depressa, queria apenas
deixar o lugar e retornar a apatia cotidiana de sentimentos.
Saiu sem olhar pra trás, mas não demorou notar que as
sensações a tanto tempo não sentidas não lhe abandonariam de pronto. O lado que
pensou estar morto estava apenas adormecido e sem marcar data, local ou hora
despertou em um tsunami de lembranças e sonhos deixados para trás.
Eles nunca foram o casal perfeito nas era perfeito quando
estavam juntos. O problema sempre foi o intervalo entre estar juntos. Ele nunca
se comprometeu e ela fingia indiferença porque era orgulhosa demais para
assumir que queria mais do recebia. Ele ia e vinha e ela sempre terminava por
abrir a porta. Nove longos anos... Ele tentou, e foi a vez em que mais a feriu.
Ela desistiu e resolveu que para não voltar atrás faria qualquer coisa
possível. Desistiu de amá-lo ainda que tivesse certeza que o amaria para
sempre.
Seguiu a vida e não era ruim como estava. Era calmo,
consistente e sentia-se produtiva como nunca. Descobriu novas paixões e nunca
antes teve tanto foco para realizar as atividades a que se determinava. Sobre o
amor, ele existia, e descobriu que o amor não era nada daquilo, o amor era
tranquilo, confortável e até chato. Mas desejo não, o desejo ficou para trás. E
tudo bem também, pelo menos é o que acreditou até aquele momento.
Correu pra casa, tomou um banho quente e ficou quietinha
esperando passar, há de passar...

Amei
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