sexta-feira, 6 de março de 2020

9 anos depois...


Imaginou o momento uma centena de vezes. Cores, sons, cheiros, palavras ditas. Imaginava e sentia-se plena. Mas não, em nenhuma única vez imaginada ficou paralisada, com o corpo tremulo e essa bola sufocante travando a garganta. Ficou quietinha, tentando desaparecer na cadeira, falando baixinho para não ser ouvida, olhando na direção contrária para garantir que caso ele a visse pensasse que ela não o viu e ficasse tudo por isso mesmo. Apressou a família para que a refeição terminasse depressa, queria apenas deixar o lugar e retornar a apatia cotidiana de sentimentos.
Saiu sem olhar pra trás, mas não demorou notar que as sensações a tanto tempo não sentidas não lhe abandonariam de pronto. O lado que pensou estar morto estava apenas adormecido e sem marcar data, local ou hora despertou em um tsunami de lembranças e sonhos deixados para trás.
Eles nunca foram o casal perfeito nas era perfeito quando estavam juntos. O problema sempre foi o intervalo entre estar juntos. Ele nunca se comprometeu e ela fingia indiferença porque era orgulhosa demais para assumir que queria mais do recebia. Ele ia e vinha e ela sempre terminava por abrir a porta. Nove longos anos... Ele tentou, e foi a vez em que mais a feriu. Ela desistiu e resolveu que para não voltar atrás faria qualquer coisa possível. Desistiu de amá-lo ainda que tivesse certeza que o amaria para sempre.
Seguiu a vida e não era ruim como estava. Era calmo, consistente e sentia-se produtiva como nunca. Descobriu novas paixões e nunca antes teve tanto foco para realizar as atividades a que se determinava. Sobre o amor, ele existia, e descobriu que o amor não era nada daquilo, o amor era tranquilo, confortável e até chato. Mas desejo não, o desejo ficou para trás. E tudo bem também, pelo menos é o que acreditou até aquele momento.
Correu pra casa, tomou um banho quente e ficou quietinha esperando passar, há de passar...

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